Portalegre JazzFest, 2 de Maio de 2018

Portalegre JazzFest

Um passo em frente

texto Gonçalo Falcão fotografia Petra Cvelbar e Ziga Koritnik

Concentrada num único fim-de-semana, a 15ª edição do JazzFest deu um salto relativamente aos anos anteriores, conseguindo chamar mais público ao espaço, o CAEP, que serve uma cidade que vem parecendo divorciada da música ao vivo. Muito graças a um cartaz de grande qualidade que não esqueceu o jazz português e teve a dupla Bill Frisell / Thomas Morgan (foto acima) como principal chamariz.

Portalegre tem paulatinamente afirmado o seu caminho no panorama do jazz nacional com uma festa pequena, mas de grande qualidade. “Fest” pode ser festival ou festa: prefiro o segundo termo, porque a dimensão do evento não justifica o incremento (três dias, seis concertos) e porque representa bem o ambiente do evento.

O folguedo de Portalegre realizou-se num fim-de-semana, o de 26 a 28 de Abril, e valeu a pena ir da costa até à fronteira para o disfrutar. Para um visitante, faz-se com muito mais do que música, pois a cidade é um monumento ao bem-estar e ao bem-comer, a dois passos da Portagem (aldeia) e do Marvão (onde fazemos as pazes com o IRS e com todas as areias que lixam o nosso dia-a-dia), e permite um muito bom e próximo convívio com os músicos e com a organização. Óptima ideia, o adiamento por quase um mês da data do Portalegre JazzFest em relação aos anos anteriores, já que em Abril o tempo é muito mais amigo.

É importante referir os preços dos bilhetes, pois se na Gulbenkian pagamos de 15 a 20 euros para ouvir um concerto em que os mesmos Ingebrigt Haker Flaten ou Bill Frisell poderiam participar, aqui esse valor paga o passe para os seis e mais vinhos da região e petiscos no final de cada concerto. Assim, não é o preço, o tempo ou a bola que afasta as pessoas das cadeiras do CAEP (Centro de Artes e Espectáculos de Portalegre): a cidade é que parece estar divorciada da música. A experiência do passado (não só no jazz, mas também na pop e no rock) é que o auditório dificilmente se senta por completo; não se percebe, pois estamos a falar de uma capital de distrito, com universidades e com uma oferta cultural muito pequena (basta comparar com Guimarães, por exemplo), mas a verdade é que os locais não parecem valorizar a música ao vivo. O município tem estado a fazer um trabalho resistente de criar hábitos culturais nesta área, trabalho esse que este ano parece ter começado a dar resultados. 

Trio demolidor

 

A inauguração fez-se com um trio demolidor, na geometrização mais simples da banda sueca Angles. Os escandinavos têm variado em dimensões – noneto, sexteto e agora trio –, numa tentativa de explorar várias perspectivas da mesma ideia musical. Nesta versão básica, o grupo liderado por Martin Küchen, nos saxofones, junta Ingebrigt Haker Flaten no contrabaixo e Kjell Nordeson na bateria. A música é alicerçada em frases elementares no contrabaixo, daquelas que ficam logo na memória, repetidas obcessivamente. Parecem temas que sempre existiram e que só estavam à espera que alguém os tocasse, de tal modo são simples e familiares. Sobre este mel aparece o sax com frases musicais concisas e directas ao assunto, e este é uma energia muito forte na improvisação e uma grande qualidade nos solos e na construção de ideias comuns, ficando o saxofone a liderar e a secção rítmica a contribuir, com um som muito cru.

A bateria de Nordeson (músico que já tínhamos ouvido no Jazz em Agosto, mas em vibrafone) é delicada e muito inteligente. Sofisticada, está sempre a acompanhar e a solar simultaneamente. O som do grupo tem um “groove” muito nórdico, parecendo um hard bop comprimido para caber numa caixa do Ikea. Os dois suecos e o norueguês chegaram bem rotinados, com os temas a saírem fortes e espontâneos. Tratava-se de uma delegação nórdica do melhor jazz que se faz na Europa e que o público de Portalegre infelizmente decidiu não ir ver: a plateia ficou com muitos lugares vagos. 

Isto não é normal

 

A sexta-feira trouxe um duo gigantesco, o de Bill Frisell e Thomas Morgan, e o auditório encheu. Ouvia-se, é certo, muito Castelhano e reconheciam-se muitas caras de Lisboa e de outros festivais. Os portalegrenses largaram a novela e a bola e o resto do País ajudou a encher a plateia. A fórmula escolhida por esta dupla é simples: música muito melódica, tocada superlativamente. Haverá hoje muito poucos – mas mesmo muito poucos - que consigam tocar guitarra e contrabaixo a este nível. Frisell é a delicadeza absoluta, tocando com uma fluência e uma perfeição que parecem inumanas. Ouvido em disco é difícil perceber o grau de mestria, de domínio absoluto do ataque, da expressão, da harmonia e da melodia (tocada entre acordes e com notas soltas), mas ao vivo tornam-se evidentes. É notável a capacidade de juntar dezenas de temas da música popular americana num só, com sentido e coerência.

Thomas Morgan já nos tinha impressionado quando o ouvimos ao vivo no Hot Clube, com Jakob Bro, mas em Portalegre foi esmagador. Tem uma memória muito acima do que os comuns mortais conseguem, um som que radica em Dave Holland, mas tem uma expressão própria fruto de uma técnica assombrosa, ouvido absoluto e uma rara capacidade de reagir a cada nota dada pela guitarra. Infelizmente, o povo trivializou uma expressão que aqui se aplicaria na perfeição: “isto não é normal”.
A música tocada foi uma longa sequência de temas da tradição americana (cinema, folk, etc.), com belíssimas melodias que foram arranjadas e tocadas magistralmente. A fórmula teria funcionado melhor numa dose mais assertiva e focada no essencial: com o andar do tempo o interesse pela música foi-se desvanecendo e o foco passou para a maravilha da técnica dos dois instrumentistas. É pouco para o jazz e a coisa teria sido perfeita se fosse reduzida a 40 minutos. 

Coragem e “zapping”

 

Mais à noite, subimos ao primeiro piso do Centro de Artes e Espectáculos para ouvir The Rite of Trio. Confesso envergonhado que não conhecia o trabalho do trio portuense que já editou pela Carimbo Porta-Jazz. Acresce à vergonha o facto de Pedro Melo Alves ter ganho o Prémio de Composição Bernardo Sassetti. Penitente, ouvi o grupo com a máxima atenção. O trio toca uma música com muitas músicas dentro – rock, música erudita, improvisação total, jazz clássico –, num “zapping” feito com extremo bom-gosto e sentido musical. É este, aliás, o maior encanto da música: a ideia de colagem parece fácil, mas na verdade requer uma cultura musical ampla, uma enorme capacidade para resolver problemas musicais e um grande talento para os arranjos. A André Silva coube a tarefa ingrata de ter de tocar guitarra depois de Bill Frisell e a Filipe Louro de tocar contrabaixo depois de Thomas Morgan. Fizeram-no com o reconhecimento da impossibilidade de alcançar a qualidade técnica dos seus antecessores, mas com a coragem de quem está convicto do seu trabalho e da sua procura de um caminho musical próprio. E todos sabemos que não é a técnica que faz a música. 

A inevitabilidade das coisas que findam

 

O último dia, sábado 28, chegou com a inevitabilidade das coisas que findam. O programador, Pedro Costa, pensou numa noite exclusivamente portuguesa, não por nacionalismo bacoco, mas porque temos hoje em Portugal um grande número de músicos e grupos de grande qualidade. Assim, a festa acabou com dois grupos no palco principal e o The Rite of Trio no piso de cima. O auditório propôs um confronto de pontos de vista muito interessante, permitindo-nos ouvir duas maneiras diferentes de criar jazz: os Slow is Possible procuram um caminho novo no jazz, abrindo todas as hipóteses e usando a improvisação e o Ricardo Toscano Quarteto fecha-se num modelo já estabelecido, mas para procurar pormenores que estão ainda por revelar.
Apesar de virem de diferentes escolas e geografias, as formações Slow is Possible e The Rite of Trio têm semelhanças formais, pois exploram ambas a composição de peças grandes em que coabitam muitas e diversificadas peças pequenas, tendo na guitarra eléctrica um elemento fundamental. Formados fora do jazz, na escola clássica, os Slow is Possible estão bem apetrechados em termos técnicos e são muito livres em termos formais. Cada tema é um universo de ideias interessantes que exploram caminhos não formatados nem certificados como jazz. A ideia é andar por trilhos pouco navegados. Livre de espartilhos mentais, cada tema é como um prédio onde vivem dezenas de pessoas cujas vidas se cruzam diariamente, mas que têm diferentes ideias e rimos, diferentes gostos, diferentes problemas. Continua a impressionar a qualidade de detalhe dos arranjos e o facto de a música nunca perder estrutura, mesmo quando mistura diferentes elementos. É uma música de câmara do século XXI, de quem ouviu Coltrane, Ramones e Sciarrino e quer usar tudo com a liberdade e a improvisação, sem abdicar da cuidada composição e da criação de um universo sonoro sofisticado.

Já o quarteto de Toscano opta por usar um modelo jazzístico conservatorial, apoiando-se na técnica para explorar novas possibilidades. A evolução da capacidade expressiva e de ideias de Toscano, João Pedro Coelho (piano), Romeu Tristão (contrabaixo) e João Pereira (bateria) é notável, sendo hoje músicos com uma bagagem instrumental e um conhecimento do jazz ao mais alto nível. São excelentes na interpretação e na entrega dos clássicos, mas menos interessantes quando lidam com as composições do saxofonista. Impressionante a fluidez do discurso de Toscano, que continua a evoluir como músico mesmo estando já num plano técnico elevadíssimo. A sala com muita gente premiou a aposta do programador e da autarquia de Portalegre no jazz português.

Saímos de Portalegre com a sensação de que o festival se afirma e que merece uma divulgação maior. As lições de Guimarães mostram como um festival pode reverter para a imagem da cidade e dos seus cidadãos muito para além da música. Esperemos que a gestão autárquica, a organização (simpaticíssima, profissionalíssima, competentíssima) e a programação consigam aproveitar o passo em frente dado este ano para impulsionar a 16ª edição em 2019.