MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia, 3 de Junho de 2018

MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia

Até ao raiar do sol

texto Rui Eduardo Paes fotografia José Félix da Costa

Durante quatro dias, o “congresso dos improvisadores” levou novas caras à vila situada acima de Peniche. Ali estiveram músicos de vários países, incluindo alguns notáveis nas respectivas cenas. Para quem lá foi a fim de tomar o pulso da música improvisada, foram muito gratificantes os indícios que muitas horas seguidas de interacção colectiva proporcionaram sobre os seus presentes rumos. Algumas delas com vínculos idiomáticos assumidos.

Uma vez por ano, a habitualmente pacata (em contraste com o bulício turístico da vizinha capital do concelho, Peniche, situada mais abaixo, junto ao mar) vila de Atouguia da Baleia enche-se de gente com linguajares que os locais têm, por vezes, dificuldade em identificar. Assim aconteceu novamente, entre os passados dias 24 e 27 de Maio, para mais uma edição do MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia. Mais uma, mas que se revelou bem especial…

Na Sociedade Filarmónica, no Armazém do Grupo Desportivo Atouguiense, na Casa dos Valas, na Igreja de S. Leonardo e na Fonte Gótica convergiram cerca de 90 músicos de longitudes tão diversas quanto as que vão dos Estados Unidos à Turquia (desta vez não houve participantes japoneses – Maresuko Okamoto não se passeou pelas ruas com o seu quimono), obviamente que com uma maioria de portugueses, estes idos sobretudo de Lisboa. Ali estiveram algumas figuras de relevo nas cenas internacional e nacional do jazz criativo, da livre-improvisação e de uma série de práticas musicais limítrofes, só com uma a não concretizar a anunciada presença por motivos de saúde, o saxofonista italiano Gianni Gebbia. Se ao longo do tempo de vida da iniciativa de Paulo Chagas e Fernando Simões muitas caras se repetiram, nesta 9ª edição foram numerosos os estreantes, com o consequente refrescamento da música que se tocou. Precisamente o que o “congresso dos improvisadores” estava a precisar.

Para esta lufada de ar fresco contribuiu particularmente a prata da casa. Foi a primeira vez que no MIA esteve o guitarrista Nuno Rebelo, personalidade de destaque nas histórias do rock, da composição para dança e da improvisação made in Portugal que assentou arraiais em Barcelona, e as suas intervenções nos grupos sorteados fizeram-se notar. Sobretudo, encantaram as contribuições que deu para o concerto que muitos dos assistentes apontaram como o melhor de todo o evento, a cargo do colectivo Esquelética Sonora. Com Rebelo estiveram o já referido Simões, Abdul Moimême e Nuno Morão, e o que aconteceu foi pura magia. Se bastas vezes só se consegue algo assim depois de experimentar caminhos infrutíferos, nesta actuação cada nota contou para o resultado. O antigo líder dos Mler Ife Dada usou a guitarra a tiracolo e deitada sobre as pernas, variando entre situações mais e menos convencionais, enquando Moimême fez desaparecer a sua sob chapas que ia manipulando com objectos e microfones de contacto. A dimensão eléctrica conjugada por ambos foi equilibrada pela acústica de Fernando Simões no trombone e Morão na percussão, numa espécie de música de câmara alienígena.

Os Wasteland de Paulo Chagas (oboé) com a italiana Rosa Parlato (flauta), o britânico Steve Gibbs (guitarra clássica de oito cordas) e o francês Philippe Lenglet (guitarra eléctrica) navegaram pelas mesmas águas, mas entrando mais resolutamente em situações noise. Ainda mais camerístico na natureza, embora não nos processos, esteve o trio de guitarras de caixa formado por Fernando Guiomar, Manuel Guimarães e Miguel Almeida. Decididamente, não foi a mais comum “música improvisada” que na Atouguia se ouviu com estes projectos, e ainda bem. Outro em desalinhamento com as tendências correntes da livre-improvisação foi o quarteto Splatter, “apanhado” no início de uma digressão por terras portuguesas. Incluíam-no dois ilustres dos nossos circuitos, o baterista Pedro Melo Alves (The Rite of Trio, Omniae Ensemble, Symph) e o guitarrista Luís José Martins (Powertrio, Turbamulta, duo com Joana Sá), em associação com um dos mentores do grupo, o inglês Noel Taylor (clarinetes), e com o polaco Alex Clov-Baczkowski (saxofone alto), este em substituição de Anna Kaluza, que teve de regressar a Berlim depois de no dia anterior participar no programa de grupos sorteados. Se o especial entrosamento que Taylor e Kaluza conseguiram em anos de colaborações não se repetiu com esta versão, o carácter ondulante da música dos Splatter manteve-se e agradou – muito por responsabilidade das invulgares interacções tímbricas, texturais e rítmicas estabelecidas por Alves e Martins.

Nuno Rebelo

Nicola Guazzaloca

Abdul Moimême

Paulo Curado

Uygur Vural

João Pedro Viegas

Fernando Guiomar, Manuel Guimarães e Miguel Almeida

Maria Radich

Instalação de Mestre André

Jacques Pochat

Quinto Fabriziani, ao centro

Joana Guerra

Paulo Chagas

Fernando Simões

Ainda assim, tais pouco ortodoxos casos de abordagem improvisacional (porque havia melodia, havia referenciações eruditas, havia pulsações, havia repetição de motivos) não diminuíram o impacto causado pelo francês SpaceBop Quintet, para todos os efeitos um agrupamento do mais explícito, frontal e assumido jazz. Benoît Crauste (saxofone alto), Jerôme Fouquet (trompete), Arnaud Zmantar (guitarra eléctrica), Yoram Rosilio (contrabaixo) e Julien Catherine (bateria) interpretaram Ornette Coleman com brio e com brilho, improvisaram na esteira das influências deixadas por Albert Ayler e, enorme surpresa (ou nem tanto assim, porque Crauste viveu uns anos em Portugal e apresentou os seus companheiros e o repertório em Português), pegaram numa canção que José Mário Branco escreveu para o Grupo de Acção Cultural, dela propondo uma leitura que entusiasmou o público – como habitualmente formado na sua maioria por outros músicos.

Impacto semelhante teve outra improvisação de cariz idiomático, a tocada pelos Dead Vortex em apresentação do seu primeiro álbum, “Event Horizon / Redshift”, acabado de sair da fábrica. Depois do jazz, ouviu-se rock no MIA: um rock feito de reminiscências do estilo stoner e do psicadelismo, com algum “Live-Evil” milesiano de permeio. Fronteada pelo trompetista e manipulador de electrónica Luís Guerreiro, com dois membros dos jazzísticos Peixe Frito (o próprio Guerreiro e o baterista Pedro Santo) e outros dois dos roqueiros Signs of the Silhouette (o guitarrista Jorge Nuno e o baixista André Calvário), a banda teve uma intervenção curta, mas de extrema energia, com os presentes, mais uma vez, a saltarem dos seus lugares. Estes mesmos Dead Vortex integravam um debutante no festival que foi também um dos que mais nele se destacaram: Calvário. Na memória ficara a performance que o mesmo antes fizera, dançando com o seu baixo eléctrico, com parceiros de circunstância como o saxofonista norte-americano Blaise Siwula e o violoncelista turco Uygur Vural, uma das que foram mais comentadas nos intervalos das sessões.

Mais de acordo com edições anteriores do Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia, por este passaram também combos que têm um pé na improvisação integral e o outro no jazz. Assim foi com o Nau Quartet, juntando os irmãos José e João Lencastre, saxofone alto e bateria respectivamente, a 2/3 do Red Trio, o pianista Rodrigo Pinheiro e o contrabaixista Hernâni Faustino. E assim foi igualmente com a transalpina dupla de notáveis constituída pelo pianista Nicola Guazzaloca e pelo saxofonista tenor Edoardo Marraffa, Les Ravageurs. Guazzaloca não se ficou por esse concerto: dirigiu igualmente um dos Ensembles MIA, “tuttis” formados com os intervenientes do dia segundo o modelo de condução de Butch Morris (de assinalar ainda os que tiveram Siwula e João Madeira como “maestros”, no primeiro caso apenas com uso de vozes e no segundo indo do caos organizado ao quase silêncio). Entre os participantes nestes ensembles, e nos grupos sorteados, estiveram, por exemplo, Alvaro Rosso, Ayis Kelpekis, Bernardo Álvares, Cortez Lamont, Francisco Andrade, Joana Guerra, João Pedro Viegas, Maria do Mar, Maria Radich, Matthias Boss, Miquel Jordà, Paulo Curado, Jacques Pochat e Quinto Fabriziani.

Menos habitual neste contexto, mas representando bem os alcances que se procuram atingir, foi a inclusão de uma instalação sonora de Mestre André, improvisador que é também compositor de música electroacústica, “Sobre Telecinésia e Vitromancia”, e um muito concorrido “concerto para bebés” pelo Sofia Borges Ensemble, liderado pela percussionista portuguesa residente na Alemanha. As madrugantes “jam sessions”, como de costume, duraram até ao raiar do sol. Pelo que pudemos assistir em Maio a Oeste, não só o MIA se revitalizou como há um novo fôlego a animar as correntes que têm a improvisação como técnica e como estética.