Maranha, Mota, Garcia & Abras + Hernâni Faustino + Scorpions S/T + Mar Calvi Freitas MeloAlves, 31 de Janeiro de 2019

Maranha, Mota, Garcia & Abras + Hernâni Faustino + Scorpions S/T + Mar Calvi Freitas MeloAlves

Improvisações há muitas

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Improvisações há muitas, diria Vasco Santana. Foi o que perceberam quantos assistiram aos quatro primeiros concertos do ano na SMUP, todos eles diferentes. A jazz.pt esteve lá e conta como foi (na foto: Hernâni Faustino a solo)…

Quatro concertos realizados em três dias de Janeiro, os primeiros do novo ano na SMUP, deram uma boa perspectiva da diversidade de abordagens disso a que chamamos improvisação, e compreendendo tanto a sua dupla natureza técnica e estética como a mutabilidade das interacções que proporciona. A 12 apresentou-se naquele espaço da Parede o quarteto que lançara em 2017 o álbum “Cai Bem”, com a diferença de que Manuel Mota e Margarida Garcia tocaram agora os seus instrumentos habituais, a guitarra e o contrabaixo respectivamente, com David Maranha a manter-se na bateria e Miguel Abras no seu gravador multipistas de cassetes e nos processamentos da voz. O mesmo Abras voltaria no dia 25 com os Scorpions S/T, trio em que o vocalista da banda garage-punk Putas Bêbadas toca baixo eléctrico com o saxofone tenor de Jaime Norberto e a bateria de Vítor Lopes, partilhando o palco com aquela que foi a estreia do contrabaixista Hernâni Faustino no formato solo. A 26 ocorreu outra estreia, desta vez de todo um grupo, o formado por Maria do Mar, Juan Cato Calvi, Ricardo A. Freitas e Pedro Melo Alves numa pouco vulgar combinação tímbrica de violino, clarinete baixo, guitarra baixo electroacústica e bateria extendida por percussão vária.

A música não poderia ter sido mais contrastante. O grupo mentorizado por David Maranha voltou às habituais abordagens “drone” do fundador dos Osso Exótico, se bem que o factor minimalista em aplicação fosse mais aberto do que o do concerto de homenagem a Tony Conrad da noite anterior, no qual também participara o multi-instrumentista que temos ouvido, sobretudo, em órgão e violino – uma única nota em “loop” foi então utilizada. Neste outro contexto, a influência do compositor norte-americano desagua numa curiosa articulação de psicadelismo rock e improvisação exploratória. A música do quarteto foi de diluição das contribuições individuais dos seus integrantes, e tanto assim que era frequentemente difícil perceber, na névoa sonora criada, o que provinha da electrónica de Abras, da guitarra de Mota e do contrabaixo de Garcia. E se, por vezes, não se distinguia o que esta última colocava na partilha, o certo é que, quando a antiga colaboradora de músicos como Thurston Moore, Eddie Prévost e Loren Connors fazia uma pausa, o fluxo dos acontecimentos perdia espessura. Tudo residia no factor colectivo, com as partes a configurarem-se apenas pelo, e no, todo.

A actuação a solo de Hernâni Faustino, uns dias depois, foi como que uma ida até ao outro extremo das possibilidades permitidas pela improvisação, e se a dita tem implícita uma condição grupal, de diálogo, nesta situação a comunicabilidade com os ouvintes deixa de ser mediada pela que se faz com os outros músicos para se tornar directa, e o contrabaixista do Red Trio teve uma aguda percepção disso. A sua intervenção foi de uma despojada visceralidade, arrebatando a assistência do já mítico sótão da linha de Cascais. Não durou mais do que meia-hora, mas chegou ao fim com a medida justa – nesse intervalo de tempo Faustino explorou meia-dúzia de ideias até ao limite, sem nunca repetir soluções e ora com arco, ora em pizzicato. De um acidente no início (as cordas saltaram do encaixe) fez um recurso, incorporando-o nas argumentações a que procedia.

Mota, Garcia, Maranha e Abras

Miguel Abras

Hernâni Faustino

Scorpions S/T

Miguel Abras

Mar, Calvi e Freitas

Pedro Melo Alves

O que se seguiu nessa noite não teve o mesmo brilhantismo. Os Scorpions S/T atiraram-se a um free que, se na intenção repercutia os moldes do “jazz mimético” de uma das fases dos portugueses Telectu e do “fake jazz” dos Lounge Lizards, no desempenho revelou bastante ingenuidade – esta até poderia ser bem-vinda, mas não foi o caso. Em termos relacionais, a improvisação falhou: o baixo e a bateria posicionaram-se convencionalmente como o chão dos voos do sax tenor, mas o fundo e o topo não encaixavam. Abras e Lopes cederam ao peso da gravidade e Norberto ficou sem sustentação, deixando a nu alguma parca inventividade frásica. Os conceitos estavam lá e eram interessantes, mas a sua aplicação não funcionou. É, de qualquer modo, motivo de congratulação que músicos do rock investigativo como Miguel Abras e Vítor Lopes (que podemos recordar dos extintos Frango) estejam à procura de outras linguagens para desenvolverem a sua expressão musical.

O melhor exemplo de uma prática improvisacional colectiva ainda estava para vir: Mar, Calvi, Freitas e Melo Alves estiveram num registo de escuta mútua, com as personalidades de cada um e os resultados conjuntos a conseguirem um equilíbrio digno do espanto que causou. Fosse na suave aglutinação de pequenos pormenores como em mais largos, e intensos, gestos, o que deram ao público teve uma empatia que dá futuro a este novo projecto. Se em termos de uso dos materiais a gestão de dinâmicas foi fundamental, as dinâmicas de relacionamento dos próprios músicos acabaram por ser igualmente fulcrais, e estas buscavam constantemente novas ligações. Por exemplo: quando o mais natural seria que a guitarra baixo e a bateria estabelecessem um vínculo permanente, na maior parte da performance ouvimos a primeira a definir-se como o eixo estruturante do todo, permitindo com a sua solidez que a segunda se conectasse ora com o clarinete baixo, ora com o violino, ora (sempre que os dois instrumentos melódicos agiam em contraponto) com ambos, assim ampliando as possibilidades processuais.

A música foi libertada pelo facto de Ricardo A. Freitas e Pedro Melo Alves não terem querido funcionar como uma clássica secção rítmica. Freitas escolheu numas ocasiões um papel paisagístico, com prolongados “sustains” de que tirava o ataque com o seu pedal de volume, e em outras repetia insistentemente uma malha muito simples, mas eficaz, convertendo uma abordagem abstracta em algo de assumidamente figurativo. Melo Alves pôde, assim, ter uma intervenção textural que se mostrou preciosa, pontuando o que precisava de algo mais ou desconstruindo formas que poderiam parecer demasiado conclusivas. Juan Cato Calvi variava do quase inaudível ao imenso, num impecável doseamento de energia, e Maria do Mar foi oportuna nos acrescentos que dava às tramas. De resto, a actuação do grupo teve a propriedade de cada desfecho surgir como o mais certo para resolver o que se fizera antes, sem cair no óbvio e no previsível. Falta agora polir o diamante e esperar que esta formação continue e grave um disco (atenção, editoras!), porque tem muito para dar aos Vascos Santanas deste mundo que perceberam que não há modelos únicos para coisa alguma.