12.º Festival Porta-Jazz, 4 de Fevereiro de 2022

12.º Festival Porta-Jazz

12.º Festival Porta-Jazz / Dia 1: a união faz a beleza

texto: Gonçalo Falcão / fotografia: Adriana Melo (Mínima/Porta-Jazz)

O Porta-Jazz regressou à cidade e aos palcos e inaugurou-se às 21h30 de sexta-feira, dia 4 de fevereiro, com o lançamento do disco de Manuel Linhares ("Suspenso") e o respetivo concerto de apresentação. Seguiu-se o concerto do Coreto Porta-Jazz (que trazia o excelente "A Tribo" de 2021 por rodar). Não faltámos à chamada.

Manuel Linhares acabou de lançar o seu terceiro disco, "Suspenso" (ver crítica de António Branco aqui), e coube-lhe a honra de abrir a edição vacinada e desconfinada do 12.º Porta-Jazz.

O cantor açoriano radicado no Porto tem um registo agudo, claro e cuidado, mas uma voz curta que por vezes se dilui quando o grupo começa a tocar. Ficamos com a sensação que pontualmente faltou voz, faltou música, faltaram letras e também uma presença e atitude em palco que criasse proximidade com o público: o cantor pareceu sempre pouco comunicante, com uma gestualidade introspetiva. A música de Linhares cruza a simplicidade melódica da pop com um trabalho vocal rigoroso. A solução encontrada para jazzar foi a de complexificar pontualmente as melodias, para depois as devolver à forma original, mas esta fórmula, quando repetida, faz desaparecer a surpresa; até porque os registos rítmicos e os andamentos soavam similares.

Começou o concerto acolitado pelo Coreto, tendo depois aparecido o seu grupo, um trio de piano, contrabaixo e bateria. Se no início a big band absorveu a voz de Linhares, mesmo em trio ela pareceu por vezes não conseguir manter-se à tona (um trio que passou a quarteto com a chegada do teclista brasileiro António Loureiro, músico que foi responsável pela produção de “Suspenso”, o novo álbum em apresentação). O piano e a bateria estiveram sempre demasiado explicativos quando talvez beneficiássemos com maior liberdade e energia. Aplaudimos no final por cortesia.

 Manuel Linhares

Já o Coreto foi outra história! A big-small banda de 12 elementos deu-nos um concerto entusiasmante onde o coletivo liderado por João Pedro Brandão veio tocar ao vivo o disco “A Tribo”, também editado na Carimbo, a label da casa, no ano passado (crítica de Rui Eduardo Paes aqui). Foi uma viagem maravilhosa e muito bem tocada por vários processos orquestrais, desde os mais abstratos (ICP) aos mais melódicos (orquestra de Maria Schneider), numa música que está feita com muita inteligência, bom gosto, e que é muito bem tocada. Sentimos uma lógica wagneriana quando, no final do concerto, João Pedro Brandão dá-nos uma melodia lindíssima que tudo resolve, explorada de várias maneiras, fechando o concerto num lugar paradisíaco.

João Pedro Brandão e Coreto

Alguns solos ficaram mais na memória, mas de algum modo é injusto destacá-los porque todos os momentos solistas foram muito bons. Gonçalo Marques logo a abrir ou o de Daniel Dias no trombone e voz começaram por nos instalar num mundo sonoro onde a tradição do solista de orquestra de jazz esteve presente, mas que pertencem ao nosso tempo e nos arrebata. Também me parece importante destacar o papel de José Marrucho na bateria até porque, uns minutos antes, tínhamos estado noutro planeta rítmico. Podemos sentir vivamente a diferença entre os dois concertos neste instrumento, pois ouvimos um músico que não está preocupado em expor o ritmo – ele já lá está – mas sim de o valorizar e dar outras perspetivas. AP muito bom na guitarra, tanto nos ambientes mais clássicos como na exploração dos pedais indo para mundos mais eletrónicos. Resumindo: 12 excelentes músicos com uma pauta ótima para os guiar e liberdade para dela saírem e nos dizerem coisas interessantes.

O primeiro dia do Festival Porta-Jazz acabou em grande, mostrando que a união pode nem sempre fazer a força, mas é uma coisa bela (e, como tal, a «rare thing»).

Agenda

02 Fevereiro

João Lencastre, Pedro Branco e João Hasselberg

Miradouro de Baixo - Carpintarias de São Lázaro - Lisboa

02 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Água Ardente - Lisboa

02 Fevereiro

Ensemble Porta-Jazz / Robalo

Porta-Jazz - Porto

02 Fevereiro

José Menezes Quarteto

Cine Incrível - Alma Danada - Almada

02 Fevereiro

Manuel Oliveira, Rodrigo Correia, Alexandre Frazão e Tomás Marques

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

03 Fevereiro

Pedro Neves Trio “Hindrances” / Wabjie

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Percussion

Água Ardente - Lisboa

03 Fevereiro

Gianni Narduzzi “Dharma Bums” / Carlos Azevedo Quarteto “Serpente”

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

03 Fevereiro

Luís Figueiredo “À Deriva”

Centro de Cultura e Congressos da SRNOM - Porto

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