Branco toca Marco Paulo, 7 de Fevereiro de 2022

Branco toca Marco Paulo

Quando você vem com essa cara

texto: Nuno Catarino / fotografia: Márcia Lessa

O guitarrista Pedro Branco apresentou no Espaço Espelho d’Água, em Lisboa, a 6 de fevereiro, o seu projeto onde trabalha uma revisão jazzística da obra de Marco Paulo. Em trio, com o baterista João Sousa e o contrabaixista Carlos Barretto, Branco deu nova vida aos sucessos populares (e não só).

No pico da sua fama, entre meados dos anos ’80 e início dos 90’s, o cantor Marco Paulo representava – para as elites culturais e para a juventude virada para o rock - o cúmulo da piroseira da música portuguesa da época. Em contraponto ao imenso sucesso popular, era visto por estes como exemplo maior do mau gosto musical. Independentemente de modas, o cantor foi consolidando um cancioneiro vasto onde se reuniam temas das mais diversas autorias que ficavam unidos pela força da sua voz e da sua marca interpretativa. A qualidade da “música ligeira” de Marco Paulo começou a ser reavaliada desde meados dos anos ’90, até pela comparação com outras músicas mais popularuchas que foram invadindo o mainstream, particularmente o fenómeno pimba e derivados. 

Guitarrista e compositor, Pedro Branco tem sido um dos músicos mais ativos e versáteis da cena jazz nacional, desenvolvendo parcerias com João Lencastre (duo Eel Slap!), João Hasselberg (“Dancing Our Way to Death” e “From Order to Chaos”), João Sousa (duo Old Mountain) além de tocar com You Can’t Win, Charlie Brown, Tiago Bettencourt e Beatriz Pessoa, entre outras parcerias e colaborações. Neste seu mais recente projeto, Branco propõe uma reinterpretação jazzística de músicas de Marco Paulo, fazendo-se acompanhar pelo veterano Carlos Barretto (contrabaixo) e pelo mais jovem João Sousa (bateria). O projeto foi estreado no festival Roda Music, em setembro do ano passado, em Coimbra, e começa agora a apresentar-se ao vivo em diversos locais.

O Espaço Espelho d’Água, em Belém (ao lado do Padrão dos Descobrimentos), estava quase cheio, quase todas as cadeiras ocupadas, cerca de quarenta pessoas presentes. Quando entrámos, atrasados, já a atuação ia na segunda música. O trio atacava o clássico “Eu tenho dois amores” e desde logo se revelava o processo de trabalho: interpretação focada na essência do tema, com a guitarra a conduzir, com contrabaixo e bateria em perfeita comunhão. Seguiu-se “Sempre que brilha o sol”, mantendo as premissas. 

Além dos sucessos bem conhecidos, foram surgindo temas do disco de estreia de Marco Paulo, “Ver e Amar”, editado em 1970 – a ideia para este projeto terá surgido quando Branco descobriu este álbum (que se recomenda e está disponível no Spotify). Desse disco foram tocados “O resto da vida” (em registo lento) e “Toc-Toc”. Não faltaram êxitos como “Anita” e “Taras e manias” – este a incluir um solo de contrabaixo de Barretto (e uma inesperada desatenção no final). O trio mantém o foco na essência melódica de cada canção, com espaço para a exploração instrumental, por vezes abrindo espaço para uma maior expressividade emocional (sobretudo pela guitarra).

A chave do sucesso desde projeto passará também, necessariamente, pela familiaridade com os temas. Quem tenha nascido em Portugal não irá conhecer à partida todos os standards do songbook americano, mas terá certamente um património rico de composições com as quais esteja familiarizado. Quando entra a introdução de “Taras e manias” todos nós começamos a acompanhar mentalmente a letra da canção (“Quando / você vem com essa cara / de menina levada / para a brincadeira…”). E essa familiaridade facilita que se trabalhe em cima da canção, que se subverta, que se reinvente. Esta reinvenção em cima de património comum partilhado acaba por ser uma das matrizes do jazz. E, neste século XXI, já o jazz terá maturidade para ir beber mais além do que aos clássicos standards americanos.

O trio não se limita a “jazzar” composições pop, trata de o fazer com personalidade, respeita a estrutura e acrescenta novos elementos, trata de trabalhar um certo grau de reinvenção dentro da cada canção. A guitarra de Branco é cristalina, o som do contrabaixo de Barretto é precioso, a bateria de Sousa é versátil e está sempre atenta. O trio dialoga com naturalidade e descontração, numa música que resulta sempre fluida (fora pontuais desencontros, que podem acontecer). Para fechar o concerto chegou mais um êxito popular, “Joana”, talvez a exploração mais intensa da setlist: sem perder o eixo, foi subindo até ao crescendo final, com a guitarra a abusar (e bem) dos pedais de efeitos eletrónicos, bem acompanhada pelos comparsas. No encore chegou “Tema para uma canção”, mais um regresso a “Ver e Amar”.

O público estava conquistado. Por que motivo ficámos todos embevecidos no final? Seria por pura nostalgia, pela simples evocação e saudade de um tempo que passou? Seria pela qualidade orelhuda das composições, que nos conquistam facilmente e se cristalizaram como clássicos populares? Seria por nos permitir fazermos as pazes com o nosso passado, podermos assumir que sempre gostámos destas canções? Seja qual for o motivo, valeu a pena. Obrigado, Pedro Branco.

Agenda

01 Outubro

Jorge Moniz “Cinematheque”

Fórum Cultural do Seixal - Auditório Municipal do Seixal - Seixal

01 Outubro

Orquestra de Jazz de Espinho & Orquestra Clássica de Espinho “Kind of Blue”

Auditório de Espinho - Espinho

01 Outubro

Quarteto Cabaud / Marques

Hot Clube de Portugal - Lisboa

02 Outubro

Desidério Lázaro Quarteto

Espaço Espelho d'Água - Lisboa

02 Outubro

Zé Eduardo Trio e Lighthousers

Cantaloupe Café - Olhão

03 Outubro

Ernesto Rodrigues, Daniel Levin, Maria da Rocha e João Madeira

Cossoul - Lisboa

04 Outubro

Luke Winslow-King

Auditório Carlos Paredes - Lisboa

04 Outubro

Stanley Jordan

Douro Jazz - Teatro Municipal de Vila Real - Vila Real

05 Outubro

Nicole Mitchell

Museu Nacional Machado de Castro - Coimbra

05 Outubro

Luke Winslow-King

Casa da Cultura - Setúbal

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