Fred Frith Trio + Susana Santos Silva, 23 de Março de 2022

Fred Frith Trio + Susana Santos Silva

O gnration continua gnroso

texto: Gonçalo Falcão / fotografia: José Caldeira - Caleidoscópio

O gnration, em Braga, tinha anunciado um concerto do Fred Frith Trio, integrado no programa Caleidoscópio. No dia 19 de março deu-se uma surpresa: ao trio ​de ​Fred Frith juntou-se a convidada (não anunciada) Susana Santos Silva.

A Blackbox do gnration, agora atualizada, continua a ser um dos palcos mais interessantes do país. Com 160 lugares sentados, uma localização geográfica privilegiada (Braga, Guimarães, Porto, Vigo), um sistema de som renovado e uma programação sábia, tem as melhores condições para concertos de pequena escala. Fomos ouvir o último concerto da tournée do trio de Fred Frith que começou em Ferrara, Italia, e acabou em Braga.

O trio americano foi criado em 2013 com dois músicos da cena experimental de Oakland e chega a Portugal com um disco de 2021 (“Road”) para rodar. Guitarra, baixo e bateria, a fórmula que Frith domina na perfeição desde o início dos anos oitenta; e 1981 ressoou logo nos primeiros segundos quando apareceram as frases matemáticas, tocadas em uníssono, feitas de colcheias e pausas de igual duração. Uma releitura dos Massacre (Bill Laswell e Fred Maher) que nesse ano criaram um disco revolucionário de rock experimental ("Killing Time"). Assim foi o começo do concerto, com o trio a tocar coeso e intenso. Um arranque forte que nos deixou colados às cadeiras.

A partir dessa entrada, muito organizada, a música escrita foi abrindo espaços para a improvisação e é aqui que se percebe perfeitamente a escolha de um instrumento de sopro, um metal, para aditivar o trio. É que Jason Hoopes é um baixista forte, elétrico, que não usa os graves submarinos de Laswell mas que usa frequentemente uma lógica roqueira. Jordan Glenn, cheio de recursos e de pequenos ritmos, tem uma forma de tocar detalhada, desempenhando vários papéis, desde o mais preciso a bater os ritmos irregulares ao mais textural e abstrato. Percebemos assim a presença da trompetista portuguesa Susana Santos Silva, que tem sido uma convidada regular do guitarrista britânico em vários concertos desta tournée. Foi assim na Europa e em dois concertos no Brasil, e foi assim também em Braga.

O FF Trio passa a quarteto e o trompete adiciona um som natural que contrasta com a eletricidade do baixo e da bateria. Por outro lado, o trompete é sucinto e puro. A ligação entre a guitarra elétrica e o trompete é perfeita (e muito pouco explorada no rock - exceção a Billy Bragg - e no jazz). Susana Santos Silva também tem um léxico vastíssimo não só de abordagens tradicionais ao trompete como também de técnicas extensivas. É uma improvisadora excelente e foi capaz de sobreviver bem no meio daquela energia. Em Braga tocou excecionalmente, criando inúmeras soluções e tocando e parando nos momentos certos, como se estivesse numa orquestra ensaiadíssima.

Ir ver Fred Frith é sempre um momento especial. Foi ele o grande revolucionador do papel da guitarra elétrica na música feita com improvisação a partir dos anos setenta. Inventou um mundo novo em “Guitar Solos” (1974), integrando inúmeras técnicas como tapping, usando caixas metálicas, correntes, crocodilos elétricos, escovas e inúmeros outros objetos para traficar o som da guitarra elétrica; deitou a guitarra no colo e tocou-a na horizontal e por isto tudo foi um dos fundadores da música improvisada. Criou e tocou em bandas incontornáveis como os Henry Cow (dada-blues), Massacre (rock experimental) e com os Naked City de John Zorn (onde toca baixo). Mas no palco não apareceu como a altivez de ser referência incontornável - que de facto é. Mas tocou como tal.

O concerto foi excelente e ouvimos mestres improvisadores no seu melhor. A ligação entre a música definida e a criada no momento fez-se com naturalidade e frequentemente conseguimos ouvir aquilo que é mais singular na música improvisada, que é o modo como um músico ouve o que o outro está a fazer e encontra uma solução para se instalar naquela proposta; ou outro, por sua vez, muda também de modo a encontrar uma ligação com o novo acontecimento. Este novelo, feito a quatro, com a intensidade que vimos acontecer em Braga, é uma coisa extraordinária.

No final, o público que praticamente lotou os lugares disponíveis, aplaudiu energicamente, mostrando que se apercebeu que naquele concerto as coisas correram particularmente bem. 

A programação do gnration continua entusiasmante. Depois de Frith virá Ikue Mori, não só tocar mas fazer uma residência artística. Prometemos mais novidades bracarenses para breve.

Agenda

02 Fevereiro

João Lencastre, Pedro Branco e João Hasselberg

Miradouro de Baixo - Carpintarias de São Lázaro - Lisboa

02 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Água Ardente - Lisboa

02 Fevereiro

Ensemble Porta-Jazz / Robalo

Porta-Jazz - Porto

02 Fevereiro

José Menezes Quarteto

Cine Incrível - Alma Danada - Almada

02 Fevereiro

Manuel Oliveira, Rodrigo Correia, Alexandre Frazão e Tomás Marques

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

03 Fevereiro

Pedro Neves Trio “Hindrances” / Wabjie

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Percussion

Água Ardente - Lisboa

03 Fevereiro

Gianni Narduzzi “Dharma Bums” / Carlos Azevedo Quarteto “Serpente”

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

03 Fevereiro

Luís Figueiredo “À Deriva”

Centro de Cultura e Congressos da SRNOM - Porto

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