Som Crescente, 28 de Março de 2022

Som Crescente

Em crescendo

texto: Nuno Catarino

O trompetista Peter Evans tem promovido na Galeria ZDB o ciclo de workshops “Som Crescente”. Fomos assistir à segunda apresentação do grupo, uma atuação que contou com o acordeonista João Barradas.

Em parceria com a Galeria ZDB, o trompetista norte-americano Peter Evans tem promovido desde 2019 o ciclo de workshops “Som Crescente”. Para esta quinta edição do workshop, que juntou seis músicos portugueses, Evans contou com o apoio do acordeonista João Barradas. Esta edição do workshop resultou em duas apresentações diferentes: no dia 24 de março, quinta-feira, um concerto conduzido por Peter Evans; e no domingo, dia 27 de março, conduzido por João Barradas. Fomos assistir a esta segunda apresentação.

O norte-americano Peter Evans é um trompetista extraordinário, excelente improvisador e compositor, uma das figuras mais relevantes do jazz atual. Nas várias edições dos workshops, Evans tem contado com o apoio de outros músicos nacionais já consagrados, também para ajudarem na ligação e comunicação, como Gabriel Ferrandini, Raquel Reis, Demian Cabaud e Rodrigo Pinheiro; desta vez, contou com a colaboração de João Barradas. Pelas edições passadas do ciclo têm passado sobretudo jovens músicos, embora alguns deles já se encontram em processo de progressiva afirmação – como é o caso de Tom Maciel, João Almeida, Pedro Melo Alves, Nazaré da Silva ou Samuel Gapp. 

Desta vez, o workshop juntou Ângela Flores Baltazar (violino), Bernardo Tinoco (saxofone), Duarte Ventura (vibrafone), Clara Lacerda (piano), João Lobo (contrabaixo) e Diogo Alexandre (bateria). Se alguns dos músicos participantes se encontram numa fase inicial da carreira, outros já estarão num nível acima, particularmente Tinoco e Alexandre, com registos gravados (respetivamente “Pipe Tree” e “Garfo”) e presença assídua noutras formações, e também a pianista Clara Lacerda, que se tem apresentado com o trio The Peace of Wild Things.

A atuação do octeto (sexteto + Evans + Barradas) arrancou com uma peça de Oliveros, uma composição minimal que era um convite ao “deep listening”. Depois dessa absoluta contenção inicial, e sem pausas entre temas, foram-se seguindo outras composições, variando entre registos muito diversos: a banda continuou a atuação com a interpretação de temas de Barradas (incluindo a bela “Care”, do seu disco “Portrait”), de Greg Osby, o standard “Solar” e uma revisão criativa de Bach - na semana em que se assinala o seu nascimento, conforme referido por Barradas. Ou seja, desde jazz puro, música contemporânea, clássica e até improvisação livre, foram vários os registos abordados pelo grupo. 

A atuação do grupo atravessou também diferentes fases, com momentos bem interessantes e outros menos (nem todos os solos foram dignos de registo, por exemplo), mas no aquário da Zé dos Bois foram ouvidos alguns momentos de brilhantismo. Particularmente entusiasmante foi um momento musical em duo entre Peter Evans e João Barradas, uma improvisação fulgurante feita de diálogo e provocação – trompete (e pocket trumpet) em furiosa ebulição, acordeão a dar resposta vertiginosa – momento que só seria possível por dois virtuosos; outro momento memorável foi um vibrante diálogo entre o vibrafone de Duarte Ventura e a bateria de Diogo Alexandre, dupla que impôs um fulgor rítmico impressionante. 

Em antecipação a estas apresentações, Evans contava-nos: “muitas vezes, em workshops ou noutras situações de ensino, há muita conversa e pouca execução de música (...) tocar música criativa ou improvisada numa situação ao vivo, com essa pressão, em frente a uma plateia, dá vida às coisas. Traz à tona a urgência e os desafios da música.” Terá sido uma experiência valiosa para muitos dos músicos participantes, confrontando-os com situações musicais inéditas, levando-os a explorar uma grande amplitude de registos. Também o foi para o público, que testemunhou uma performance musical com muitos pontos de interesse. Venham daí mais edições do “Som Crescente”!

Agenda

02 Fevereiro

João Lencastre, Pedro Branco e João Hasselberg

Miradouro de Baixo - Carpintarias de São Lázaro - Lisboa

02 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Água Ardente - Lisboa

02 Fevereiro

Ensemble Porta-Jazz / Robalo

Porta-Jazz - Porto

02 Fevereiro

José Menezes Quarteto

Cine Incrível - Alma Danada - Almada

02 Fevereiro

Manuel Oliveira, Rodrigo Correia, Alexandre Frazão e Tomás Marques

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

03 Fevereiro

Pedro Neves Trio “Hindrances” / Wabjie

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Percussion

Água Ardente - Lisboa

03 Fevereiro

Gianni Narduzzi “Dharma Bums” / Carlos Azevedo Quarteto “Serpente”

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

03 Fevereiro

Luís Figueiredo “À Deriva”

Centro de Cultura e Congressos da SRNOM - Porto

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