Akiko Pavolka, 19 de Abril de 2022

Akiko Pavolka

Música sem medo

texto: Eray Aytimur

Fechando uma pequena tour em Portugal, Akiko Pavolka apresentou-se ao longo de três noites no Hot Clube de Portugal. Ao seu lado estavam Matt Pavolka no contrabaixo, André Fernandes na guitarra e João Pereira na bateria. Eray Aytimur assistou ao concerto de 16 de abril e assina a reportagem.

Tenho de começar num tom confessional porque, para ser completamente honesta, não sou apaixonada pelo género “singer/songwriter”. Por causa do excesso de oferta no mercado musical, costumo afastar-me. Mas com a música de Akiko Pavolka o caso é diferente. Ela não é apenas uma artista que conta histórias e toca piano. Ela é uma amálgama única, com as suas letras comoventes e elegantes, entre os limites da poesia americana e a poesia japonesa Waka, a sua voz rica e ampla e as suas linhas melódicas, magistralmente equilibradas entre repetição e desenvolvimento, um som idiossincrático, um sentido rítmico pungente, uma sólida compreensão de diversos estilos musicais, criatividade total na determinação do conceito.

Resumindo, sendo eu fã de longa data de Akiko Pavolka, estive no Hot Clube de Portugal no último sábado para assistir ao encerramento da sua tour em Portugal, com Matt Pavolka no contrabaixo, André Fernandes na guitarra e João Pereira na bateria. Com esta banda, Akiko tocou no Penha sco, no Café Dias, no Hot Clube (três noites) e deu uma masterclass na Universidade de Évora, seguida de um concerto. Para Akiko Pavolka, Portugal é como uma casa e, apesar do fim-de-semana prolongado da Páscoa, o público do Hot marcou presença.

Akiko Pavolka vive em Brooklyn, Nova Iorque, e é uma compositora que desenvolve uma música absolutamente original que combina pop e jazz com a sensibilidade musical do seu Japão nativo. Akiko nasceu em Tóquio, cresceu em Yokohama e mudou-se para Nova Iorque em 1995; após se ter graduado na Berklee College of Music de Boston formou a sua banda House Of Illusion. O seu disco mais recente, “Late Parade” de 2017, foi também a primeira edição da sua própria editora, Aklovap Records, e conta com a participação de Guillermo Klein (piano e Fender Rhodes), Matt Pavolka (contrabaixo) e Nate Wood (bateria).

A compositora, pianista e cantora regressou finalmente ao Hot Clube para uma sequência de três noites de concertos, eventos que estavam originalmente previstos para março de 2020, mas que tiveram de ser adiados por causa da pandemia. Em 2019 Akiko já tinha tocado com o mesmo grupo - Matt Pavolka, André Fernandes e João Pereira – e o tempo não se fez notar em termos de sincronismo e sinergia. Pelo meio Akiko aproveitou o “lockdown” para compor novos temas. Entre os temas apresentados estavam algumas novas composições, como “Sunset Park Bus Rider” e “The Sand of Memory”, e destacaria dois temas mais curtos, com as suas harmonias “debussyescas”; estrutura de sonatina e profundo lirismo. Fiquei em lágrimas quando ouvi a sua homenagem ao seu gato Kenny, que morreu em dezembro do ano passado, e precisei de fazer uma pausa lá fora… qualquer pessoa que tenha um gato sentiria o mesmo, imagino.

No segundo set a atuação esteve mais focada no disco “Last Parade”, com destaque para a interpretação dos temas “Malala”, “Rainy Light, Neon Light” e “Wave, Wave Goodbye”. O tom do espetáculo foi globalmente marcado por ambientes suaves, pacíficos e sublimes, com momentos de desconstrução e técnicas extensivas. A personalidade dos quatro músicos é tão forte que podem incluir elementos de qualquer género (rock, jazz, free jazz, improvisação livre, até clássica e pop) na sua execução e isso acrescenta uma imensa diversidade, sem nunca perderem a certeza rítmica.

Voltando ao tom confessional, posso dizer que não concordo com o “ódio” de Adorno pelo jazz, mas adoro a música ousada de Akiko Pavolka, sem medo. Tiro-lhe o chapéu!

Agenda

02 Fevereiro

João Lencastre, Pedro Branco e João Hasselberg

Miradouro de Baixo - Carpintarias de São Lázaro - Lisboa

02 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Água Ardente - Lisboa

02 Fevereiro

Ensemble Porta-Jazz / Robalo

Porta-Jazz - Porto

02 Fevereiro

José Menezes Quarteto

Cine Incrível - Alma Danada - Almada

02 Fevereiro

Manuel Oliveira, Rodrigo Correia, Alexandre Frazão e Tomás Marques

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

03 Fevereiro

Pedro Neves Trio “Hindrances” / Wabjie

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Percussion

Água Ardente - Lisboa

03 Fevereiro

Gianni Narduzzi “Dharma Bums” / Carlos Azevedo Quarteto “Serpente”

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

03 Fevereiro

Luís Figueiredo “À Deriva”

Centro de Cultura e Congressos da SRNOM - Porto

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