Moor Mother, 16 de Maio de 2022

Moor Mother

Sentido e força

texto: Nuno Catarino / fotografia: Inês Sousa Vieira

A solo ou com os Irreversible Entanglements, as palavras de Moor Mother estão sempre carregadas de sentido e força. Fomos assistir à sua atuação na Galeria ZDB, em Lisboa, no dia 12 de maio.

No seu recente livro “Ugly Beauty: Jazz In the 21st Century”, o crítico Phil Freeman destaca alguns músicos que têm se afirmado no panorama jazz deste novo século. Um dos nomes assinalados é Moor Mother, que tem direito ao capítulo final do livro. Freeman sintetiza: “Moor Mother é uma observadora feroz e lúcida do lento declínio da América”. A verdade é que, a solo ou com os Irreversible Entanglements, Moor Mother é uma espetadora atenta e a sua intervenção está ligada com a sua faceta ativista, as suas palavras nunca são ligeiras, estão sempre carregadas de sentido e força. A sua música serve-se de elementos jazz, cruzando-os com outros universos musicais, particularmente o hip-hop. Fomos assistir à sua atuação na Galeria ZDB, em Lisboa, no dia 12 de maio – curiosamente o dia em que se ficou a conhecer o programa do Jazz em Agosto, no qual Mother vai atuar (com os Irreversible Entanglements e em duo com Nicole Mitchell).

Perante um aquário muito bem composto, Camae Ayewa (nome de batismo), sozinha em palco, exibiu o seu espetáculo assente exclusivamente em voz e eletrónica. A voz atua sobretudo em registo spoken word, mas também se atira ao hip-hop. Instrumentalmente, Mother usa um laptop, com bases musicais pré-gravadas, e acrescenta eletrónica manipulada em tempo real. O ambiente musical é frequentemente jazzístico, evoluindo em direção a uma convulsão free, sobre a qual Moor Mother debita palavras enérgicas, com intensidade.

A iluminação do palco era quase inexistente, Moor Mother quase não se conseguia ver na escuridão. Sobre as tapeçarias de eletrónica, a voz de Moor Mother lança palavras de força que vão combinando revolução e poesia, mundos que nem sempre se interligam. Mother fá-lo com mestria e explora em diferentes momentos diferentes sentimentos, sobretudo tensão e raiva, mas também acalmia. O público da ZDB foi rapidamente conquistado e não hesitou em mostrar o seu entusiasmo. No final, Moor Mother despediu-se de forma original, saudando o público da primeira fila com um “fist bump” – uma estreia para este vosso crítico.

A atuação no aquário da ZDB foi globalmente interessante, embora tenhamos ficado com vontade de ouvir a voz apoiada por uma base instrumental mais orgânica. As atuações no Jazz em Agosto, com os Irreversible Entanglements e em duo com a flautista Nicole Mitchell, serão certamente memoráveis.

Na primeira parte atuou Ariyouok, músico que nasceu em Portugal e cresceu em Cabo Verde, já colaborou com o rapper Tristany e está a trabalhar no seu álbum de estreia. Também sozinho em palco, Ariyouok trabalhou apenas com voz, sampler e alguns sons pré-gravados: a voz criava sons, gravados e repetidos com o sampler, e os temas iam ganhando camadas e estrutura. Ariyouok explorou principalmente temas que se aproximam de um R&B contemporâneo, aveludado. Ao longo da atuação foi ainda explorando outros géneros de eletrónica, desde momentos de eletrónica minimal até techno. A abordagem é muito interessante e criativa, ficámos curiosos com aquilo que o futuro possa trazer.

Esta reportagem marca o início da colaboração da fotógrafa Inês Sousa Vieira (ex-colaboradora da webzine Bodyspace) com a jazz.pt. Aqui fica galeria de fotos.

Agenda

02 Fevereiro

João Lencastre, Pedro Branco e João Hasselberg

Miradouro de Baixo - Carpintarias de São Lázaro - Lisboa

02 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Água Ardente - Lisboa

02 Fevereiro

Ensemble Porta-Jazz / Robalo

Porta-Jazz - Porto

02 Fevereiro

José Menezes Quarteto

Cine Incrível - Alma Danada - Almada

02 Fevereiro

Manuel Oliveira, Rodrigo Correia, Alexandre Frazão e Tomás Marques

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

03 Fevereiro

Pedro Neves Trio “Hindrances” / Wabjie

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Percussion

Água Ardente - Lisboa

03 Fevereiro

Gianni Narduzzi “Dharma Bums” / Carlos Azevedo Quarteto “Serpente”

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

03 Fevereiro

Luís Figueiredo “À Deriva”

Centro de Cultura e Congressos da SRNOM - Porto

Ver mais