NoA, 22 de Maio de 2022

NoA

Cenas no bosque

texto: Nuno Catarino / fotografia: Cristina Borges

O grupo NoA acaba de editar o seu segundo disco, “Concavexo”. Esta formação, atípica, junta três músicos consagrados da cena jazz nacional: Nuno Costa na guitarra, Óscar Graça nos teclados e André Sousa Machado na bateria. O trio apresentou-se ao vivo no Jardim Botânico de Lisboa, ao final da tarde de sábado, dia 21 de maio.

Sabemos todos que é importante levar a música para fora dos seus circuitos habituais, para que esta possa chegar a outras pessoas, além dos nichos. E foi isso que aconteceu no passado sábado, no Jardim Botânico de Lisboa. O jardim tem um pequeno anfiteatro e o espaço acolheu o trio NoA, numa iniciativa do Hot Clube de Portugal. Apesar da assombrosa beleza do cenário envolvente, e do bom tempo, percebemos rapidamente que o espaço não possuía as condições ideais. O concerto tinha entrada livre, pelo que alguns dos espectadores eram turistas que souberam do concerto no momento e juntaram-se ao evento (o que é ótimo!); contudo, entre o público algumas pessoas não estavam particularmente interessadas na música, e o desinteresse (e conversas) de alguns perturbava a concentração dos outros. É muito bom que se leve a música a diferentes locais e nem sempre a música precisa de ser vivida em ambiente de clube ou com a rigidez de uma sala de espetáculos tradicional. Contudo, por vezes, as condições poderão não ser as ideais para a fruição da música.

O trio NoA é um projeto musical que junta Nuno Costa (guitarra elétrica), Óscar Graça (teclados) e André Sousa Machado (bateria e percussão), três nomes consagrados da cena jazz nacional. Estrearam-se com o disco “Evidentualmente”, em 2020, e o grupo lança agora o seu segundo registo, “Concavexo”, onde contam com um convidado muito especial, o lendário Rão Kyao, que participa em dois temas, "Inquieto" e "Circo do Oriente" - no jardim apresentaram-se apenas os três músicos da formação. O trio exibiu a sua música muito própria, um jazz sólido que absorve influências externas, particularmente do rock. A qualidade das composições é evidente e a interpretação é soberba e fluída, por três músicos de nível alto que trabalham atentos à dinâmica de grupo. Nuno Costa, é mentor de vários projetos (como Saga Cega, com Rita Maria, ou o recente "Cenas de uma vida no bosque"); o fraseado jazzístico da sua guitarra é impecável e combina com a herança rock; Óscar Graça, sempre versátil, sabe colorir os temas com muitas ideias; e André Sousa Machado, imparável, contribuiu com alta intensidade rítmica, alimentando o fluxo coletivo.

O material apresentado veio sobretudo do disco mais recente, mais ouviram-se algumas passagens pelo anterior “Evidentualmente”. Os temas do novo “Concavexo” são globalmente apelativos, mas ficámos com pena de não podermos ouvir a flauta de Rão Kyao, neste breve regresso ao jazz do flautista (e saxofonista), que nos deixou obras marcantes como o disco pioneiro “Malpertuis” (produzido por Paulo Gil, recentemente falecido, considerado o primeiro disco de jazz editado por músicos portugueses, em 1976) ou o belíssima fusão jazz-fado de “Fado Bailado” (1983). Pelo meio da atuação, o trio apresentou uma surpresa: fez uma interpretação de “Os Índios da Meia Praia”, de Zeca Afonso. Apesar de o trio ter interpretado a música com personalidade, com um arranjo adaptado ao trio, manteve as linhas melódicas intactas. Uma boa escolha porque, neste momento em que temos doze membros de um partido de extrema-direita no parlamento, que vem alimentando xenofobia e branqueamento de racismo, talvez seja boa ideia lembrar que “a luta continua / pois é dele a sua história / e o povo saiu à rua”.

Apesar de a atuação não ter decorrido com as condições ideais, o trio tratou de mostrar a sua música original e fê-lo com profissionalismo. A maior parte do público aprovou e aplaudiu.

Agenda

02 Fevereiro

João Lencastre, Pedro Branco e João Hasselberg

Miradouro de Baixo - Carpintarias de São Lázaro - Lisboa

02 Fevereiro

Mockūnas-Mikalkenas-Berre

Água Ardente - Lisboa

02 Fevereiro

Ensemble Porta-Jazz / Robalo

Porta-Jazz - Porto

02 Fevereiro

José Menezes Quarteto

Cine Incrível - Alma Danada - Almada

02 Fevereiro

Manuel Oliveira, Rodrigo Correia, Alexandre Frazão e Tomás Marques

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

03 Fevereiro

Pedro Neves Trio “Hindrances” / Wabjie

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Percussion

Água Ardente - Lisboa

03 Fevereiro

Gianni Narduzzi “Dharma Bums” / Carlos Azevedo Quarteto “Serpente”

Festival Porta-Jazz - Rivoli - Porto

03 Fevereiro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

03 Fevereiro

Luís Figueiredo “À Deriva”

Centro de Cultura e Congressos da SRNOM - Porto

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