Festival Robalo, 26 de Julho de 2022

Festival Robalo

A olhar para o futuro

texto: Nuno Catarino / fotografia: Jorge Carmona

A associação Robalo apresentou o seu festival entre os dias 18 a 22 de julho, no auditório do Liceu Camões, em Lisboa. Foram dez concertos em cinco dias: Oh Yes, Pigs Can Fly!, Sara Serpa “Intimate Strangers”, João Carreiro Quinteto, Albert Cirera y Kamarilla, Ensemble Robalo / Porta-Jazz, Trio de André Matos, ĩ pru vi ˈzar, APOPHENIA, The Peace of Wild Things e VAGA (Yedo Gibson, Felipe Zenicola, Susana Santos Silva e Paal Nilssen-Love). A jazz.pt passou por lá.

A par da Clean Feed e da Porta-Jazz, a associação Robalo tem sido uma das forças dinâmicas mais ativas do jazz português contemporâneo, não só pela vertente editorial (cada mais maior e mais consolidada, tendo recentemente editado “Live in Lisbon” do trio Ben Monder / Tony Malaby / Tom Rainey), como pelo trabalho regular de programação. Como momento de celebração deste contínuo e meritório trabalho, o festival Robalo teve lugar no Liceu Camões, com atuações ao fim da tarde (às 18h00 e às 19h30), sempre com entrada livre e com transmissão em direto na Antena 2. 

O festival abriu no dia 18 de julho com o grupo Oh Yes, Pigs Can Fly!, liderado pelo guitarrista viseense Leonardo Outeiro, rodeado de jovens talentos da sua geração (Bernardo Tinoco, João Almeida, José Diogo, João Fragoso e Miguel Rodrigues). Seguiu-se a estreia em Lisboa do projeto “Intimate Strangers” de Sara Serpa. Não tivemos oportunidade de assistir a estes concertos, mas o António Branco assistiu à atuação do grupo de Sara Serpa no Jazz no Parque, em Serralves, e deixou aqui o seu testemunho.

Oh Yes, Pigs Can Fly! Sara Serpa


Fomos assistir aos concertos do segundo dia: João Carreiro Quinteto e Albert Cirera y Kamarilla. Carreiro acaba de editar o disco “Pequenos desastres” (edição Robalo) e teve aqui o seu momento de apresentação da sua música ao vivo. O jovem guitarrista e compositor (também integrante do trio Peixe-Boi), faz-se acompanhar por um grupo de pesos pesados: Gonçalo Marques (trompete), Albert Cirera (saxofones tenor e soprano), Demian Cabaud (contrabaixo) e João Lopes Pereira (bateria). O quinteto apresentou ao vivo as ideias do disco, com destaque para os solistas, particularmente Cirera e Marques. Contudo, apesar dos bons temas que o disco traz, ao vivo a música soou por vezes deslaçada; particularmente à guitarra, que tinha o som demasiado baixo, pedia-se mais protagonismo. Ainda assim, o grupo deixou boas indicações.

Seguiu-se o grupo Kamarilla, liderado por Albert Cirera. O saxofonista catalão já viveu durante alguns anos em Lisboa e regressou onde foi feliz com o seu sexteto. O grupo trazia na bagagem o disco “Aquella Cosa” (edição Underpool) e neste projeto o líder Albert Cirera (saxofones tenor e soprano) está acompanhado por Marcel.lí Bayer (saxofone alto e clarinetes), Iván González (trompete), Vicent Pérez (trombone), Javi Garrabella (baixo eléctrico) Ramon Prats (bateria). O grupo apresenta uma música muito dinâmica, e simultaneamente muito estruturada, com cada composição a incluir diferentes momentos, ambientes, quebras e mudanças de ritmo. A liderança de Cirera (que ao vivo, em vários momentos, trabalha a condução dos músicos como se se tratasse de uma orquestra), leva a música a ter uma grande fluidez, mesmo com todas as quebras, surpresas e ziguezagues. Mais do que destaques individuais (e todos revelaram excelentes prestações), vale a pena realçar a dinâmica coletiva, o seu enorme envolvimento e pujança. O tema de despedida, “Riff i Rafe”, foi representativo do trabalho do grupo: muitas ideias, muito envolvimento e muito groove.

João Carreiro Quinteto Albert Cirera y Kamarilla


Na quarta-feira foi a vez de se apresentarem em palco o Ensemble Robalo / Porta-Jazz e o Trio de André Matos. O ensemble tem sido promovido para fomentar colaborações entre músicos de Lisboa e do Porto - um trabalho muito necessário, pois os 300km de distância parecem ser infinitos para muita gente -, e desta vez juntaram-se em palco João Almeida (trompete), Eurico Costa (guitarra), Nuno Trocado (guitarra), João Fragoso (contrabaixo) e Gonçalo Ribeiro (bateria) – concerto ao qual não tivemos oportunidade de assistir.

Chegámos a tempo de ver o novo Trio de André Matos, formação onde o guitarrista que vive em Nova Iorque está acompanhado por dois músicos portugueses: João Hasselberg no baixo elétrico e João Lopes Pereira na bateria. O guitarrista tem uma produção discográfica recente que é quase impossível de acompanhar, entre discos a solo e colaborações. No mais recente, “Directo ao Mar” (Robalo), o guitarrista trabalha uma música assente na exploração de efeitos, com frases melódicas desconstruídas, resultando uma música rugosa, distante do som límpido que lhe conhecíamos anteriormente. Hasselberg (no baixo elétrico, mas sobretudo nos efeitos) e Pereira (percussão) alinham na exploração, todos nivelados no mesmo registo. Curiosa e desafiante, esta música é exigente para o ouvinte, que poucas vezes é recompensando. Só no final se pôde ouvir melodia mais clara, com Matos a desenhar linhas luminosas, funcionando como espécie de sobremesa para os resistentes.

Ensemble Robalo / Porta-Jazz Trio de André Matos


Já na tarde de quinta-feira atuaram duas formações: ĩ pru vi ˈzar e APOPHENIA. ĩ pru vi ˈzar é um projeto que junta João Grilo no piano e Marcos Cavaleiro na bateria. Se os projetos de Grilo são marcados pela desconstrução e pelo humor (recorde-se O Grilo e a Longifolia), já a música de Cavaleiro está habitualmente ligada a uma maior sobriedade; aqui o baterista alinha com o pianista numa música que atravessa universos sonoros. Respondendo a sons pré-gravados, a dupla vai elaborando uma música assente na improvisação, embora servindo-se tambémde formas pré-estruturadas. De momentos de free enérgico até outros de absoluto classicismo, esta música está sempre a desafiar e a surpreender.

Seguiu-se a atuação do quarteto APOPHENIA, grupo que junta João Gato (saxofone alto), Bernardo Tinoco (saxofone alto e soprano), Zé Almeida (contrabaixo) e Samuel Dias (bateria). Este concerto assinalou o lançamento do disco de estreia do quarteto (edição Robalo #28). Liderado por Gato, este grupo propõe um jazz assumidamente contemporâneo, uma música curiosa e aberta: os dois saxofones alto (de Gato e Tinoco), podem correr o risco de se sobreporem, mas assumem registos diferentes: Tinoco mais estruturado, Gato mais apressado, também mais explosivo; Almeida e Dias complementam com o ritmo. Apesar das diferenças de registo, a dupla de saxofones funcionava melhor quando Tinoco mudou para o soprano, complementando o alto de Gato. O quarteto revelou um jazz original e aceso, deixando-nos com curiosidade para ouvir o disco.

ĩ pru vi ˈzar APOPHENIA


Para encerrar o festival atuaram, na sexta-feira, mais dois grupos: The Peace of Wild Things, trio de Clara Lacerda (piano), Romeu Tristão (contrabaixo) e Ricardo Coelho (percussão) e VAGA (Yedo Gibson nos saxofones, Felipe Zenicola no baixo elétrico, Susana Santos Silva no trompete e Paal Nilssen-Love na bateria). Dois concertos, em registos diferentes, que muito prometiam, mas que não tivemos oportunidade de presenciar. Dos concertos que pudemos testemunhar, confirmámos que a Robalo está muito ativa, a promover um jazz contemporâneo, muitas vezes desafiante; atenta ao talento jovem, a Robalo está a olhar para o futuro.

The Peace of Wild Things VAGA

Agenda

30 Novembro

Sul

Museu Nacional Soares dos Reis - Porto

30 Novembro

Miguel Ângelo Quarteto

Teatro Municipal de Bragança - Bragança

30 Novembro

Gonçalo Sousa e Francesca Guatteri

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

30 Novembro

Orquestra Jazz de Matosinhos com Chris Cheek

Casa da Música - Porto

01 Dezembro

Manuel Oliveira, Rodrigo Correia, Alexandre Frazão e Tomás Marques

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

01 Dezembro

Sul

Hot Clube de Portugal - Lisboa

02 Dezembro

MJAJA

O'culto da Ajuda - Lisboa

02 Dezembro

João Lencastre Free Celebration

SMUP - Parede

02 Dezembro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

02 Dezembro

Sul

Hot Clube de Portugal - Lisboa

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