1.º Festival de Jazz Bernardo Sassetti, 10 de Agosto de 2022

1.º Festival de Jazz Bernardo Sassetti

Como é que se começa?

texto: Gonçalo Falcão / fotografia: Maria Bicker

Não queríamos deixar de estar presentes na Cerca do Convento Espírito, em Loulé, para estarmos na primeira plateia da primeira edição do Festival de Jazz Bernardo Sassetti. A diretora artística da Casa Bernardo Sassetti, responsável pela montagem e organização do festival, Inês Laginha, deu-nos as boas-vindas nesta edição inaugural e explicou que este festival pretende manter viva a memória musical do pianista. Um festival nómada que irá procurar o apoio de câmaras e instituições que o queiram receber e assim ir deixando uma memoração viva pelo país da música e espírito do celebrado.

A estreia ocorreu em Loulé que assim suspendeu por um ano o seu habitual festival internacional (que se realiza desde 1995) para a acolher. “Este festival é a concretização de uma ideia de há muito tempo para homenagear o Bernardo e todo o trabalho que construiu.” Explicou a programadora. 

Inês Laginha

As noites têm dois concertos seguidos. Nos dois primeiros dias a fórmula foi semelhante: jazz instrumental seguido de jazz cantado. No último tivemos um primeiro concerto de piano solo e depois o trio da terra convidou o trompetista João Moreira.

Quarteto Mário Barreiros

Conscientes da solenidade do assento (e assim desejando que se repita por muitos anos) dispusemo-nos a ouvir Mário Barreiros que veio do Porto com um disco novo “Dois Quartetos Sobre o Mar” acabado de editar. Trouxe o Quarteto Pacifico com Ricardo Toscano no saxofone, Abe Rábade no piano e Carlos Barreto no contrabaixo.

Apesar de estarmos num território clássico, por vezes demasiado restringente com a bateria a limitar-se a explicar o tempo, ouvimos Abe no seu melhor, a solar extraordinariamente bem e a cruzar um solo com Toscano, com os dois músicos num diálogo rápido e provocante. O saxofonista esteve mais discreto, com um som mais distante do que o que lhe estamos habituados a ouvir. Carlos Barreto sempre impecável definiu e ajudou a manter a estrutura, sendo mesmo assim criativo e interessante, não a definindo em demasia. Um bom concerto apesar do alinhamento escolhido por Barreiros e a forma de o abordar não pretender inovar ou surpreender.

Ricardo Toscano

Findo o concerto tinha-se estabelecido no bar ao lado do local dos espetáculos a ideia que os músicos devem ser ignorados. Num ponto da nossa história mais recente, talvez por causa dos roscofe jazzístico, surgiu a ideia que a música não é para ser ouvida. É para ser um fundo o consumo de comida, bebida ou compras em malls. Os restaurantes têm música de fundo, as lojas têm música de fundo, os transportes públicos têm música de fundo, andamos na rua com música de fundo e conduzimos o carro com música de fundo. Algumas pessoas perderam o respeito pelos músicos.  O facto de estar ali alguém que sabe tocar um instrumento musical não merece mais respeito que um feixe de laser.

Salvador Sobral

É difícil de compreender, mas os turistas mais labregos não encontraram razões para fazer silêncio ou reduzir o ruído ao mínimo possível (ou até procurar outro bar enquanto o concerto decorria, que os havia). Pelo contrário, acharam que a música era um fundo agradável para as suas conversas, cujo volume tiveram que aumentar para se lhe sobrepor. 

Assim, quando Salvador Sobral subiu ao palco já se ouvia a horda grosseira; apesar do dono do bar ter tido o cuidado de instalar um cartaz a pedir silêncio à freguesia - na língua que eles percebem (no segundo dia espalhou cartazes desses por todo o espaço, minorando – mas não resolvendo – o problema), o respeito não se instalou. Salvador Sobral tentou apresentar o disco “BPM” numa luta contra um coro de narsantes.

Salvador Sobral

Editado em 2021 o disco mostra a primeira aventura de Sobral na composição. Ouve-se a voz do compositor (partilhada com a do produtor Leo Aldrey) e a do intérprete pela primeira vez. São canções simples, no universo da pop, tocadas por um grupo de jazz que de algum modo tenta criar alguma particularidade. Sobral tem uma voz bonita e um bom domínio da forma de cantar. Não abdica de alguma experimentação, canta com alegria e energia e ao vivo as canções são muito mais interessantes do que em disco.

Veio com André Santos na guitarra, Bruno Pedroso na bateria, André Rosinha no contrabaixo (que também participaram na gravação do disco). Abe Rábade regressou ao banco do piano (também Toscano seria chamado a vir soprar num dos temas).

André Santos

Com esta instrumentação e músicos, os temas de Sobral soam mais jazzísticos do que em disco. Contudo o espaço para a improvisação não é muito e a estrutura harmónica e melódica também não permite grandes voos. Foi um concerto gentil numa noite quente de verão, com um espetáculo bem preparado e ensaiado, alegre, descontraído e que nunca soou repetitivo. As músicas não espantam, deixam-se ouvir com descontração. O cantor ainda tentou delicadamente pedir ao pessoal das conversas algum noise canceling, mas eles não encontraram razões para o fazer.

Mané Fernandes

No segundo dia, dose dupla novamente. Primeiro com um trio de músicos novos com trabalhos surpreendentes. O guitarrista do Porto Mané Fernandes (crítica a  “ENTER THE sQUIGG” aqui) apresentou um novo projeto em trio, convidando o baterista Diogo Alexandre e o teclista de Braga José Diogo Martins.

Diogo Alexandre

Os três entraram num processo de improvisação partilhado onde Mané Fernandes se parecia sentir menos à vontade. Já José Diogo Martins e principalmente Diogo Alexandre fizeram um concertaço, com música excelente. A bateria impressionou particularmente pois conseguiu estar sempre num universo rítmico que Mané Fernandes preza, perto da batida regular do hip-hop e ao mesmo tempo sempre a criar coisas diferentes e novas. Tudo o que se colocasse por cima daquela batida iria soar bem, por concordância ou oposição. O trio parecer não ter um plano definido, o que fez com que estivessem sempre numa procura de semelhanças e contrastes na improvisação, guiados por uma base rítmica em permanente aceleração e compressão, contratempos, irregularidades que nos coloca em guarda a sentir o tempo por sugestão, marcação ou ausência. 

A fechar o segundo dia estava programada a Orquestra Jazz de Matosinhos com a voz de Rebecca Martin (que gravou com a OJM e Larry Grenadier o “After Midnight”, mas o COVID foi nosso amigo e fez com que fosse substituída por Manuela Azevedo. Ficámos claramente a ganhar. Não que a voz da cantora do Maine seja má ou desinteressante. Partilha até com Manuela Azevedo algumas características: é clara, sucinta, straight to the point, sem floreados ou emotividades excessivas. Mas a cantora dos Clã é muito mais interessante. É clara, simples, com a emotividade certa e honesta. Também a escolha do alinhamento é interessante, pois apostou em canções pop/rock que permitiram à OJM trabalhar nos arranjos de modo a criar uma personalidade jazzística dentro de um universo melódico relativamente básico.

Ouvimos Beatles, Queens Of The Stone Age, Elvis Costello, Tom Waits, Ornatos Violeta, Chico Buarque e, claro, Clã. A orquestra desinibida mas muito coesa, nalguns casos arranjos brilhantes, que respeitam a história e o contexto dos temas originais sem serem reverentes, bons solos e uma voz que canta com os recursos que tem. É mesmo isso que se pede de uma cantora,  a matéria prima de algumas das grandes da história do jazz. Sem tiques nem afetações jazzísticas, usando muito bem o processamento da voz, não procurando ser o que não é, foi fantástico ouvir Manuela Azevedo com a OJM, uma noite especial.

Tivemos pena de não ouvir nada do homenageado neste segundo dia até porque a OJM gravou este ano com Luís Figueiredo a sua “Canção Para O Bernardo” recentemente editada pela label do músico (Roda) no disco “Se Por Acaso”.

No dia de encerramento a dose também era dupla e bem servida. Começámos com Daniel Bernardes sozinho no piano a interpretar Bernardo Sassetti. O pianista de Alcobaça releu muito bem as pautas que ficaram mais lentas e pensativas. Gostei particularmente desta abordagem que retira a fluidez e o encanto melódico imediato para nos dar um olhar, quase nota a nota, sobre o processo de escrita.

Daniel Bernardes

Trio de Jazz de Loulé com João Moreira

O encerramento coube ao Trio de Jazz de Loulé, acompanhado por João Moreira no trompete. O grupo formou-se em Julho de 2016 no festival de Loulé, apadrinhado pelo pianista Mário Laginha e acabou de editar o seu primeiro CD com o apoio da Câmara Municipal da cidade. Tocaram muito bem, correcto, intenso, focado, com o destaque para a bateria de João Pereira e encerraram o festival em beleza.

Trio de Jazz de Loulé 

Trio de Jazz de Loulé 

Agenda

30 Novembro

Sul

Museu Nacional Soares dos Reis - Porto

30 Novembro

Miguel Ângelo Quarteto

Teatro Municipal de Bragança - Bragança

30 Novembro

Gonçalo Sousa e Francesca Guatteri

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

30 Novembro

Orquestra Jazz de Matosinhos com Chris Cheek

Casa da Música - Porto

01 Dezembro

Manuel Oliveira, Rodrigo Correia, Alexandre Frazão e Tomás Marques

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

01 Dezembro

Sul

Hot Clube de Portugal - Lisboa

02 Dezembro

MJAJA

O'culto da Ajuda - Lisboa

02 Dezembro

João Lencastre Free Celebration

SMUP - Parede

02 Dezembro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

02 Dezembro

Sul

Hot Clube de Portugal - Lisboa

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