20.º Jazz ao Centro: Alabaster DePlume, 25 de Setembro de 2022

20.º Jazz ao Centro: Alabaster DePlume

Segundo dia, vinte anos

texto: Gonçalo Falcão / fotografia: João Duarte

Como não há nenhum mandamento que obrigue os festivais de jazz a só programarem jazz, o segundo concerto do Jazz ao Centro, edição de aniversário, oferecia Alabaster DePlume. No Salão Brazil, em Coimbra, e com entrada gratuita, a sala esgotou. 

Alabaster DePlume 

DePlume é um fenómeno recente que vive naquela linha inexistente que separa o jazz e a música pop instrumental: um pouco como os The Lounge Lizards de John Lurie ou os Rootless Cosmopolitans de Marc Ribot, a música de Alabaster DePlume está numa fronteira que só interessa aos fiscais do jazz. Nós, os outros, ouvimos.

Marcelo Viana Frota Guitarra

Faz canções bonitas, simples; linhas melódicas sedutoras, tocadas vagarosamente, quase como se Loren Mazzacane Connors decidisse interpretar ABBA. Mas se os ingredientes são quase primitivos, a receita é muito inovadora e esse fator é, desde logo, encantador. Fazer música nova com peças antigas é de valor.

Donna Thompson

As melodias são diretamente retiradas das canções de jazz etíopes: ouvimos muito Getatchew Mekurya em de DePlume. Muito. O som do saxofone, embocado de lado, de uma forma muito pouco académica, no canto da boca, é frágil e cheio de ar. As melodias festivas, tocadas, lenta e expirantemente, evocam um Albert Ayler no último sopro, antes de expirar.

Alabaster DePlume

Parece-nos estar a ouvir sempre a mesma música, repetidamente, (“Whisky Story Time” soa tão próxima de “Visit Croatia”) tocadas com processos e ideias diferentes, mas soando semelhantes ao longo de todo o concerto.

Esta sua linguagem muito própria apareceu desde o início. Em “Copernicus: The Good Book of No” (2012), tresandava a Devendra Banhart e ao estilo frágil e esvaído de que ele e Joanna Newson se tornaram representantes. Em “Jester” apareceu a ideia de Cabaret e o spoken word com voz de Barry Adamson com o estilo drunken word de Tom Waits. “Peach” (2015), apostou ainda mais na palavra, no humor com um fundo musical orquestral. Até aqui estávamos no campo da folk singer/songwriter.

 

Alabaster DePlume

Em 2020 transfere-se para a International Anthem e a sua música muda. Repesca temas como “Visit Croatia” (que vinha de “Copernicus”) e faz um disco Instrumental, polido, frágil. Aparece também “Whisky Story Time”. Criados os hit singles, DePlume tem seguido a fórmula de “To Cy & Lee: Instrumentals Vol. 1”, o disco de estreia na popular editora de Chicago. A referenciação nos “ethiopiques” Getatchew Mekurya, Alèmayèhu Eshèté, Menelik Wossenatchew e toda a geração de saxofonistas, bandleaders da etiópia dos anos 50 e 60 é ineludível.

“Gold”, o mais recente LP, mistura a música de “To Cy & Lee” com o spoken word à Barry Adamson.

Alabaster DePlume

Ao vivo, com dois guitarristas cantores, uma baterista cantora e ele próprio enquanto cantor e diseur, dá um concerto longo (quase duas horas) de música bonita como um acalento, sedutora em que o uso das harmonias vocais é muito bem gerido, as suas intervenções faladas são meticulosamente inseridas para marcar diferentes andamentos do concerto e as canções sucedem-se com leveza, num espetáculo quente, amável e bonito.

Agenda

30 Novembro

Sul

Museu Nacional Soares dos Reis - Porto

30 Novembro

Miguel Ângelo Quarteto

Teatro Municipal de Bragança - Bragança

30 Novembro

Gonçalo Sousa e Francesca Guatteri

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

30 Novembro

Orquestra Jazz de Matosinhos com Chris Cheek

Casa da Música - Porto

01 Dezembro

Manuel Oliveira, Rodrigo Correia, Alexandre Frazão e Tomás Marques

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

01 Dezembro

Sul

Hot Clube de Portugal - Lisboa

02 Dezembro

MJAJA

O'culto da Ajuda - Lisboa

02 Dezembro

João Lencastre Free Celebration

SMUP - Parede

02 Dezembro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

02 Dezembro

Sul

Hot Clube de Portugal - Lisboa

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